A necessidade de mudanças na educação.
É fato notório a existência de uma crise nos métodos
de educação em nível mundial. Trata-se
de uma crise institucional e não de uma crise dos alunos e manifesta um mal
muito antigo, porém, pouco visível, mas que tem seu lado positivo. É boa essa
percepção do erro e o incômodo que tem causado. Ainda que levemos muito tempo
perpetuando uma educação obsoleta, já não se pode educar à força a nova geração
e isso é bom. Esta crise, portanto, está provocando a quebra de um sistema que
embora seja funcional é muito antigo e tornou-se ineficaz. Podemos chamá-lo de
sistema patriarcal, ou hierárquico. Paulo Freire em seu livro “Pedagogia do
Oprimido” chama-o de sistema bancário, pois os professores se comportam como narradores
indiscutíveis, que depositam seus saberes nos alunos e estes, por sua vez, pacientemente
ouvem e arquivam conteúdos como se fossem um banco. O ideal seria adotar uma
atitude que concedesse mais liberdade e autonomia ao aluno, horizontalizando a
rede de captação e absorção de conhecimentos, ao invés da transmissão
hierárquica alheia aos anseios e interesses do aluno.
Um bom exemplo dessa nova maneira de pensar a educação
é o que é praticado em uma escola de Portugal chamada Escola da Ponte, dirigida
pelo educador José Pacheco. Muito diferente das escolas que possuem as salas de
aulas tradicionais, com alunos dispostos à frente de um professor e este
ensinando, explicando a matéria prevista nos programas oficiais, com aquela
campainha que soa a intervalos regulares avisando que vai haver uma troca -
muda-se de matéria, frequentemente muda-se de professor, pois há professores de
matemática, de geografia, de ciências, etc., cada um ensinando a disciplina de
sua especialidade. Na Escola da Ponte não existem classes separadas, 1º ano, 2º
ano, 3º ano, etc. Também não existem aulas em que um professor ensina a
matéria. O processo educativo funciona assim: os alunos formam pequenos grupos
com interesse comum por um assunto, reúnem-se com um professor e ele,
juntamente com os alunos, estabelece um programa de trabalho de 15 dias,
orientando sobre o que devem pesquisar e os locais onde pesquisar. Usam muito
os recursos da Internet. Ao final dos 15 dias os alunos se reúnem novamente e
avaliam o que aprenderam. Se o que aprenderam foi adequado, aquele grupo se
dissolve e forma-se um outro para estudar outro assunto. Os alunos que estão
sendo alfabetizados aprendem a ler frases inteiras, que ficam afixadas às
paredes. Estas frases são propostas pelas próprias crianças que expressam o que
estão vivendo. Aprendem assim, que a escrita serve para narrar a vida que cada
um vive. Uma abordagem de aprendizado semelhante ao aprendizado da fala. As
crianças aprendem palavras inteiras, pois somente palavras inteiras fazem sentido.
Elas não aprendem os sons para depois juntar os sons em palavras. Na Escola da
Ponte as crianças maiores ensinam os menores, tudo sempre monitorado por um
professor, claro. Existe um quadro onde os alunos escrevem que tipo de ajuda
estão precisando em determinada matéria e também escrevem que tipo de assunto
dominam e estão dispostos a ajudar outros alunos, formando assim uma rede de
ajuda e conhecimento. A Escola da Ponte é uma escola sem turmas, sem
professores e sem aulas de português, geografia, ciências, história, em lugares
e horas determinadas que obedece um programa hierárquico e automatizado como
uma linha de montagem, com testes e conceitos ao final do ano letivo. Ela
utiliza a lógica do processo natural de aprendizagem que ocorre com todos os
seres humanos quando aprendem a falar. Rubem
Alves define muito bem este processo fazendo a seguinte reflexão:
“Imaginem que o ensino da linguagem se desse em escolas, segundo os
moldes de linha de montagem que conhecemos: aulas de substantivos, aulas de
adjetivos, aulas de verbos, aulas de sintaxe, aulas de pronúncia. O que
aconteceria? As crianças não aprenderiam a falar. Por que é que a aprendizagem
da linguagem é tão perfeita, sendo tão informal e tão sem ordem certa? Porque
ela vai acontecendo seguindo a experiência vital da criança: o falar vai colado
à experiência que está acontecendo no presente. Somente aquilo que é vital é
aprendido. Por que é que, a despeito de toda pedagogia, as crianças têm
dificuldades em aprender nas escolas? Porque nas escolas o ensinado não vai
colado à vida. Isso explica o desinteresse dos alunos pela escola. ”
Precisamos de uma educação afetiva ou interpessoal como
essa, uma educação que tenha essa capacidade de existir por meio da boa
convivência e da participação da comunidade e da qual o mundo precisa
urgentemente. A educação precisa ocupar-se da dimensão profunda do ser humano.
Segundo Claudio Naranjo, em seu livro “Mudar a
educação para mudar o mundo” a proposta
de nos encaminharmos para uma educação verdadeiramente mais relevante para a
vida teria que privilegiar o autoconhecimento, o que significaria, junto ao
propósito de uma educação para uma convivência feliz, uma reeducação importante
dos educadores. É preciso incorporar o autoconhecimento ao currículo de
formação dos profissionais da educação. Tanto na Espanha, como no Brasil, a lei
de educação introduziu o conceito de “transversalidades” em referência a uma
educação ética orientada para valores universais que se espera que os
professores possam repartir através da forma em que põem em prática o currículo
tradicional. Uma concepção que reflete a intuição de que a educação se faz através
de um contágio pessoal de sabedoria e amor em parte espontâneo.
Ainda segundo Naranjo,
“necessita-se, portanto, de um terceiro elemento entre os ramos do currículo
clássico e dessa educação nos valores que se pretende levar a cabo através das transversalidades:
a transformação do educador(...) E assim
transpassar ou transformar as limitações de um sistema implicitamente opressor
que, perpetuando nossa ignorância fundamental, milita contra a saúde de nossas relações.
Pensar, por exemplo, na diferença entre alfabetização e letramento para atingir
o objetivo de um real sucesso na aprendizagem dos alunos. Segundo Paulo Freire “A prática
educativa será tão ou mais eficaz quando, possibilitando aos educandos o acesso
ao conhecimento fundamentais ao campo em que se formam, os desafie a construir
uma compreensão crítica de sua
presença no mundo”. De forma análoga ao pensamento de Paulo Freire, Renee Hobbs
diz que “a aprendizagem da escrita deve implicar a aprendizagem do mundo, uma
vez que o sujeito, a linguagem e o conhecimento estão interligados. Toda a gama
de competências cognitivas, emocionais e sociais que inclui a utilização de
textos, ferramentas e tecnologias; as habilidades de reflexão crítica e
análise, a prática da criação da mensagem e criatividade, a capacidade de se
envolver na reflexão e pensamento ético, assim como a participação ativa
através de trabalho em equipe e colaboração. ”
Para atingir este objetivo, os educadores precisam utilizar-se o quanto
possível das novas tecnologias que fazem parte do cotidiano das novas
gerações. Fazendo uso de todas as mídias
ao alcance dos alunos: internet,
televisão, cinema, tablet, celular, rádio, quadrinhos, livro, música, redes
sociais, videogame, entre outras.
Porém,
ao se pensar a utilização de tecnologia no processo pedagógico não se pode
esquecer que o aluno, o sujeito e não a técnica, é que deve ser o centro da
ação. É preciso ver primeiro as potencialidades do indivíduo, a máquina é
apenas um instrumento. É importante que o foco esteja no desenvolvimento do
potencial do aluno e que a tecnologia seja apenas uma ferramenta que viabilize
este desenvolvimento.
Em
nosso próximo seminário, lançaremos as bases para um projeto que visa utilizar-se
de tecnologias disponíveis para o desenvolvimento de um processo educativo que
valorize o letramento e não a pura e simples alfabetização.
REFERÊNCIAS
ALVES, RUBEM - A
escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir. Papirus Editora,
Campinas, SP, 2001 e Edições Asa, Porto, 2001.
FREIRE,
Paulo - Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
HOBBS, Renee. Digital
and media literacy: connecting culture and classroom. USA: Corwin, 2011.
(tradução livre)
REZENDE, Maria
Vidotti de – O conceito de letramento digital e suas implicações pedagógicas. http://periodicos.letras.ufmg.br/index.php/textolivre
Ano: 2016 – Volume: 9 –
Número: 1 – ISSN 1983-3652